quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Olhar-ventania
Esse seu olhar-ventania
Que minhas portas e janelas
se abrem de par em par
em completo descompasso
em total desarmonia
É esse vendaval nordeste
varrendo inteiro meu corpo
rasgando todas minhas vestes
levantando poeiras adormecidas
espalhando folhas rascunhadas
expondo frases inacabadas
pedaços perdidos de uma vida
revirando a ponta do lençol
só metade amarrotado
que reflete à luz do sol
a forma do corpo amado
e há muito esquecido
Esse vento que me trespassa
feito punhal em carne macia
minh’alma-balão, devassa
menos enche, mais esvazia
Mas, um dia, ao pressentir
Esse olhar que me sacode o pó
Ah, um dia eu me tranco todo
E aí você vai ver só...
terça-feira, 4 de agosto de 2009
domingo, 12 de julho de 2009
Pensares (1)
Todo mundo erra uma vez na vida. E às vezes os tolos nem sabem que erraram. Na verdade, sei que não errei. E mesmo assim já transitei em julgado.
O bis in idem não é tolerável. O preceito básico do non bis in idem é que ninguém pode ser julgado duas ou mais vezes por um mesmo fato.
Então por que, por aquele “erro” que cometi há tanto tempo, e que pelas leis dos homens já prescreveu, e pelo qual já fui julgado e condenado por ti, ainda me condenas a cada dia?
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Astronauta
terça-feira, 2 de junho de 2009
A vingança dos sons de antigamente
Todos nós trazemos, nos escaninhos de nossa memória, lembranças de muitos sons de antigamente. São sons familiares, que podem nos assaltar a cada momento do dia, mas que preferem a noite para nos alegrar ou assombrar. Eu trago muitos deles comigo, como o pocar da minha jogadeira Marraia. Roberto Carlos deve ouvir constantemente, na sua mansão em São Paulo, o ranger das rodas do trem sobre os trilhos.
Rubem Braga tinha a ilusão de ouvir, noite adentro, lá na sua cobertura, o murmúrio do Itapemirim sobrepondo-se ao espoucar das ondas do mar de Ipanema. E dizia, cinco décadas depois, ainda ouvir os sons de antigamente: ”Um cacarejar sonolento de galinhas numa tarde de verão; um canto de cambaxirra, o ranger e o baque de uma porteira na fazenda, um tropel de cavalos que vinha vindo e depois ia indo no fundo da noite. E o som distante dos bailes do Centro Operário, com um trombone de vara ou um pistom perdidos na madrugada”. E revela que o som mais comum era o do velho relógio de parede que levara para sua casa no Rio. “Sua batida é suave, como costumam ser a desses Ansonias antigos; e esse som me carrega para as noites mais antigas da infância”.
O velho relógio de parede, um Ansonia hoje centenário, sempre pertenceu à casa de Rubem. “Quando meu pai comprou a nossa casa de Cachoeiro, esse relógio já estava na parede da sala; e que o vendedor o deixou lá, porque naquele tempo não ficava bem levar. Há poucos anos trouxe o relógio para minha casa de Ipanema. Mais velho do que eu, não é de admirar que ele tresande um pouco”, conta ele, em crônica de 1977 (Os sons de antigamente).
O relógio voltou à casa dos Braga em Cachoeiro, como uma relíquia. E devia estar batendo erradamente as horas, que era assim que ele devia funcionar mesmo. E lá ficava ele, a marcar o tempo a seu bel-prazer.
Pois há coisa de dias, levaram o velho relógio de parede da casa dos Braga. Sem permissão. E só poderia ser assim mesmo, pois de outra maneira não sairia de lá. Não foi coisa de ladrão comum; foi coisa de quem sabe o valor histórico da peça. Foi furto de encomenda.
O mandante do furto do Ansonia também deve ter lá seus sons que o perturbam. Não devem ser poucos, pois um ladrão não é uma pessoa normal, que traga boas lembranças da infância. Mas o dito cujo arranjou outro problema agora: um som que era agradável para Rubem, mas que será o inferno em sua vida.
O velho relógio de parede há-de perturbar-lhe a vida até o fim dos tempos, ou até que devolva o precioso bem cultural da cidade: há-de andar tocando a ave-maria em pleno meio-dia, e o desgraçado vai ter de se ajoelhar, penitente, em plena rua, ou onde estiver; há-de bater as onze da noite em plena hora do almoço, e o desalmado mergulhará em sono profundo sobre o prato de comida; e ainda baterá as nove da manhã bem no meio da madrugada, e o ladrão preguiçoso terá de se levantar, já atrasado, e perambular pela noite deserta atrás de seu trabalho.
O novo “dono” do “Insonia” doravante sofrerá de insônia terrível, e perderá totalmente a noção do tempo. O relógio baterá horas durante a noite toda, e cada badalada soará como o ribombar de um canhão, ensurdecedor, furando-lhe os tímpanos. O dia há de virar noite, e os fantasmas dos velhos Bragas hão de puxar-lhe os pés...
Que ele ande, desande, tresande, e que o ladrão vague pela vida, sem saber se é dia ou noite.E, se o fruto do furto não for devolvido dentro de um mês, o velho Ansonia amarrará seu tempo ao do seu ladrão, e seus ponteiros desembestarão e passarão a girar a uma velocidade vertiginosa e, passado mais um mês, o ladrão morrerá de velhice.
Que Deus me ouça!
http://www.relogiodorubem.blogspot.com/

