Concurso de poesia
Poeta cansado de tentar fazer poemas, de procurar rimas, de lutar contra a métrica, de não encontrar hemistíquios, procura poemas prontos, bem acabados, que lhe proporcionem leitura macia e profunda.
O poeta anda cansadinho de ler poemas sem rimas, sem conteúdo e sem forma. E por isso lança um concurso em nível mundial, mas de alcance restrito. O Poeta garante que o prêmio compensa.
Na verdade, o poetinha só quer ler os “teus” poemas.
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Desejos (VII)
Quando eu for à praia de novo, quero comer caranguejos. Meu desejo era aprender a fazer caranguejos (cozinhá-los, não “ser pai deles”). Mas, antes, preciso aprender a comê-los, bem rapidinho, com a mesma maestria com que tu os devora. E aprender a sorrir e a me lambuzar todinho durante o banquete. Então, meu desejo maior era que tu me ensinasses a comê-los. Tu me ensinas?
sábado, 21 de março de 2009
Desejos (VI)
Quando estiveres bem cansada, e tua mão deixar cair caneta e papel sobre o tapete e adormeceres na poltrona, quero te pegar no colo e te levar pra cama (com o mesmo cuidado com que carrego um livro) e te cobrir docemente e ficar ao teu lado, olhando a noite inteirinha pro teu rosto sereno — a imaginar o que escreves enquanto sonhas.
sábado, 28 de fevereiro de 2009
Namoradeira
Sou daqueles que tinham uma casa apenas como ponto de partida. Nunca liguei para decoração, para o visual do lar. Para mim, tanto fazia se um móvel era novo ou velho, azul ou verde. Mas agora, de apartamento novo, ando achando que umas coisinhas velhas aqui e ali não fazem feio, para contrastar. E que uma habitante nova me faria muito bem.
E andei reparando nisso, depois de minha irmã já ter feito misérias em meu apartamento. Deixei a seus cuidados a decoração, e ela andou fuçando ferros-velhos e pendurando nas paredes até grades de janelas, achadas em depósitos de demolição. E não é que ficou bonito?
Andei pensando na segunda coisa depois que certa moça visitou meu novo lar. Ela veio, deu um palpite aqui, outro ali, iluminou o ambiente, deu vida ao meu lar e foi embora. Assim que ela se foi, após tão rápida visita, nunca a casa ficou tão vazia, escura, triste, enorme.
Logo agora, quando a casa passou a ser meu ponto de chegada.
(Ainda não conheço bem minha nova casa, mas vejo nela um castelo decrépito: há muros intransponíveis, mas derrubados; pontes elevadiças, abaixadas; portas de folhas duplas gigantescas, abertas; salas de armas, desprotegidas; calabouços escuros, sem chaves; salão de danças, vazio; torres indevassáveis, porém ensolaradas. E no meio de tudo isso, como se fosse a dona do meu castelo, há uma princesinha se fazendo de visita, passeando por todos meus pensares, lépida e fagueira, e logo vai embora — deixando seu perfume por onde passa.)
O visual da minha casa melhorou muito, mas vi que falta uma mão masculina nessa decoração (minha irmã feminilizou demais meu lar). E tenho cá minhas idéias acerca de como deve ser um apartamento de um solteiro.
E há-de ser assim: tiro aquele quadro cheio de rosas e penduro ali um violino; troco a máquina de lavar por uma adega; no lugar dos sucos coloco vinhos; onde há grades, ponho uma gaiola de portinhola aberta; em vez de ferrolhos, simples taramelas; na varanda, tiro aquela samambaia e coloco minha velha Remington, com as teclas de acento faltando.
A varanda... É ali que quero meter, com mais propriedade, minha colher de decorador. Nesse espaço de metro-e-meio-por-três-e-meio, hei-de montar meu escritório. Quero instalar, solenemente, mesa e duas cadeiras. Tenho em mente o mobiliário: um jogo de varanda estilo antigão, decorado com folhas e rendas de ferro fundido. Esse é o meu gosto. Sobre a pequena mesa redonda, à tardinha, coloco meu Notinho. Ao lado dele, meu bonsai e um copinho de cachaça. Uma das cadeiras, ocupo eu; a outra, deixo reservada para a solidão sentar comigo, quando quiser me visitar — coisa rara e da qual não faço questão.
Mas aí residem os problemas. O primeiro deles é que já encontrei esse conjunto de móveis — exatamente o que quero; percorri várias lojas, mas fui encontrá-lo justamente na casa de uma senhora que parece ter muito apreço por seus móveis antigos. Mandei-a pôr preço. Ela ainda negaceia, se faz cheia de amores por eles. Espero que a paixão que demonstrei pelos móveis fale mais alto ao seu coração do que, ao bolso, o valor que estou disposto a pagar por eles. Por que sou assim: se quero uma coisa, há-de ser ela, apenas ela. Ou tudo ou nada. E quando me apaixono por algo, ou por alguém, sou disposto a esperar e a pagar o preço exigido.
O segundo e derradeiro problema: acompanhando o jogo há uma namoradeira. A boa senhora sinalizou que, se vender, há-de ser tudo junto. E eu, que já terei uma cadeira vazia, o que farei com uma namoradeira, cuja razão de existência pressupõe a presença de duas pessoas? De dois namorados, aliás.
Ah, dirão vocês: “Namorada é fácil de achar”. É. Mas eu não saio por aí procurando. E, depois, eu quero ser achado, e não achar. E como ando tão escondidinho, na moita... E uma amiga dirá: “É fácil espantar qualquer solidão com uma namoradeira ao lado”. Sei não. Com relação a namoradeiras... nem banco nem mulher espanta a solidão.
Por achar que mais vale uma namoradeira vazia na varanda que duas nas mãos, decidi — à revelia da proprietária — comprar a dita cuja, e deixá-la quietinha, no cantinho da varanda, à disposição. E sobre ela vou colocar almofada bem macia, e sobre esta vou colar uma etiqueta com o nome da única pessoa que poderá sentar-se ali. Por que sou assim: se quero uma mulher...
Amigos, torçam por mim — para que eu consiga comprar minha namoradeira e a moça não-namoradeira que eu quero venha sentar-se nela à tardinha...
E andei reparando nisso, depois de minha irmã já ter feito misérias em meu apartamento. Deixei a seus cuidados a decoração, e ela andou fuçando ferros-velhos e pendurando nas paredes até grades de janelas, achadas em depósitos de demolição. E não é que ficou bonito?
Andei pensando na segunda coisa depois que certa moça visitou meu novo lar. Ela veio, deu um palpite aqui, outro ali, iluminou o ambiente, deu vida ao meu lar e foi embora. Assim que ela se foi, após tão rápida visita, nunca a casa ficou tão vazia, escura, triste, enorme.
Logo agora, quando a casa passou a ser meu ponto de chegada.
(Ainda não conheço bem minha nova casa, mas vejo nela um castelo decrépito: há muros intransponíveis, mas derrubados; pontes elevadiças, abaixadas; portas de folhas duplas gigantescas, abertas; salas de armas, desprotegidas; calabouços escuros, sem chaves; salão de danças, vazio; torres indevassáveis, porém ensolaradas. E no meio de tudo isso, como se fosse a dona do meu castelo, há uma princesinha se fazendo de visita, passeando por todos meus pensares, lépida e fagueira, e logo vai embora — deixando seu perfume por onde passa.)
O visual da minha casa melhorou muito, mas vi que falta uma mão masculina nessa decoração (minha irmã feminilizou demais meu lar). E tenho cá minhas idéias acerca de como deve ser um apartamento de um solteiro.
E há-de ser assim: tiro aquele quadro cheio de rosas e penduro ali um violino; troco a máquina de lavar por uma adega; no lugar dos sucos coloco vinhos; onde há grades, ponho uma gaiola de portinhola aberta; em vez de ferrolhos, simples taramelas; na varanda, tiro aquela samambaia e coloco minha velha Remington, com as teclas de acento faltando.
A varanda... É ali que quero meter, com mais propriedade, minha colher de decorador. Nesse espaço de metro-e-meio-por-três-e-meio, hei-de montar meu escritório. Quero instalar, solenemente, mesa e duas cadeiras. Tenho em mente o mobiliário: um jogo de varanda estilo antigão, decorado com folhas e rendas de ferro fundido. Esse é o meu gosto. Sobre a pequena mesa redonda, à tardinha, coloco meu Notinho. Ao lado dele, meu bonsai e um copinho de cachaça. Uma das cadeiras, ocupo eu; a outra, deixo reservada para a solidão sentar comigo, quando quiser me visitar — coisa rara e da qual não faço questão.
Mas aí residem os problemas. O primeiro deles é que já encontrei esse conjunto de móveis — exatamente o que quero; percorri várias lojas, mas fui encontrá-lo justamente na casa de uma senhora que parece ter muito apreço por seus móveis antigos. Mandei-a pôr preço. Ela ainda negaceia, se faz cheia de amores por eles. Espero que a paixão que demonstrei pelos móveis fale mais alto ao seu coração do que, ao bolso, o valor que estou disposto a pagar por eles. Por que sou assim: se quero uma coisa, há-de ser ela, apenas ela. Ou tudo ou nada. E quando me apaixono por algo, ou por alguém, sou disposto a esperar e a pagar o preço exigido.
O segundo e derradeiro problema: acompanhando o jogo há uma namoradeira. A boa senhora sinalizou que, se vender, há-de ser tudo junto. E eu, que já terei uma cadeira vazia, o que farei com uma namoradeira, cuja razão de existência pressupõe a presença de duas pessoas? De dois namorados, aliás.
Ah, dirão vocês: “Namorada é fácil de achar”. É. Mas eu não saio por aí procurando. E, depois, eu quero ser achado, e não achar. E como ando tão escondidinho, na moita... E uma amiga dirá: “É fácil espantar qualquer solidão com uma namoradeira ao lado”. Sei não. Com relação a namoradeiras... nem banco nem mulher espanta a solidão.
Por achar que mais vale uma namoradeira vazia na varanda que duas nas mãos, decidi — à revelia da proprietária — comprar a dita cuja, e deixá-la quietinha, no cantinho da varanda, à disposição. E sobre ela vou colocar almofada bem macia, e sobre esta vou colar uma etiqueta com o nome da única pessoa que poderá sentar-se ali. Por que sou assim: se quero uma mulher...
Amigos, torçam por mim — para que eu consiga comprar minha namoradeira e a moça não-namoradeira que eu quero venha sentar-se nela à tardinha...
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Desejos (V)
Quando eu for lá em casa, quero pedir a minha mãe que me faça bolinhos de arroz, e me dê a receita. Quero guardá-la como símbolo de que nada se perde nessa vida. Porque minha mãe não sabe fazer arroz, mas o bolinho que ela faz com os restos do arroz que a gente não consegue comer...! Mas o que eu quero mesmo são os restinhos do teu amor. Por que tu também não sabes me amar; mas com as sobras que me cabem, faço bolinhos de amor que alimentam-me por dias seguidos...
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