quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Amor que fica

Anda, agora, assim revolta

Revoando de beijo em beijo

Em abraços sem compromissos

Em “não me amole”, “deixa disso”

Querendo ser livre, leve e solta

Não sente mais aquele desejo

Não sente mais nenhuma paixão

Apenas fica, sem qualquer emoção

Entre um que vem e outro que passa

Rodeando de longe seu coração

Sem nunca cair em agrado

Tal e qual gorda e velha traça

Desejando livro recém lançado

É borboleta perdida na noite

Deslocada no espaço-tempo

Com esses tantos “ficantes”

Ao cabo, todos amores errantes

Que lhe fustigam como açoite

Que não lhe amarram correntes

Que não lhe deitam raízes

Que não lhe deixam sementes

Esses amores inocentes

Essa coisa meio adolescente

São apenas um disfarce

Pra superar o impasse

Que impera em sua vida

Desde a grande despedida

Do amor que lhe abriu a rosa

Deixou-lhe o ventre em brasa

O útero em polvorosa

Porque o amor verdadeiro

Já lhe ensinara o ditado

E ela o teve comprovado

O amor que fica para sempre

E ela enrubesce quando lembra

E ficam sem saber o que fazer

Porque ainda treme de prazer

Ah, o amor que verdadeiramente fica...

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Amor amigo

Nunca fui de amores lerdos
Amores desses tipo semente
Que se regam constantemente
E que lutam contra o tempo
Passam meses em dormência
E só brotam após uma existência

Meus amores sempre foram poucos
Mas foram todos muito loucos
Desses que, assim, de repente
Ocupam corpo e mente
Um olhar apenas e a decisão
Você é meu amor, meu tesão

O primeiro é água morna
O segundo é indecente
Aquele, que nunca entorna,
Mantém a paixão dormente
Este, que é pura tiborna
Acaba com a vida da gente

Mas ando pensando ultimamente
E vá lá que isso suceda
Que você, amiga carente
Se achegue assim, de repente
E, com essa voz de seda
Diga que assim coisa e tal
E que tal se nós, se a gente...

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Amor Infernal

Não procuro um amor aferido
Que em tudo comigo concorde
Música de um só acorde
Como samba desafinado
Que entra por um ouvido
E sai logo do outro lado

Não quero amor adocicado
Amorzinho-perfeitinho
Mas algo bem temperado
Com sal, pimenta e cominho
Que saiba me fazer carinho
Com gosto puro de pecado

Não quero amor de anjo
Que me leve para o céu
Prefiro amor-diabo
Escorregadio feito quiabo
Que me faça um escarcéu
E me ponha em desarranjo

Eu não procuro amor passivo
Mas mulher em forma de gente
Pois enquanto eu estiver vivo
O inferno é mais atraente

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Olhar-ventania

Basta você me lançar
Esse seu olhar-ventania
Que minhas portas e janelas
se abrem de par em par
em completo descompasso
em total desarmonia

É esse vendaval nordeste
varrendo inteiro meu corpo
rasgando todas minhas vestes
levantando poeiras adormecidas
espalhando folhas rascunhadas
expondo frases inacabadas
pedaços perdidos de uma vida
revirando a ponta do lençol
só metade amarrotado
que reflete à luz do sol
a forma do corpo amado
e há muito esquecido

Esse vento que me trespassa
feito punhal em carne macia
minh’alma-balão, devassa
menos enche, mais esvazia

Mas, um dia, ao pressentir
Esse olhar que me sacode o pó

Ah, um dia eu me tranco todo
E aí você vai ver só...

terça-feira, 4 de agosto de 2009